O Manuscrito Que Não Deveria Existir


O Manuscrito Que Não Deveria Existir

Quando a história começa a escrever você

A chuva caía sobre a cidade como se tentasse apagar algo da superfície do mundo.

Lia estava sozinha no arquivo histórico municipal quando encontrou a caixa.

Ela trabalhava catalogando documentos antigos — registros de nascimento, cartas administrativas, contratos esquecidos pelo tempo. Nada que pudesse mudar o mundo. Nada que pudesse ameaçar a realidade.

Mas naquela noite, enquanto organizava uma prateleira no setor mais antigo do prédio, percebeu um compartimento falso atrás de uma estante metálica.


A Caixa Sem Registro

A caixa era pequena. De madeira escura. Sem identificação.

Não constava em nenhum inventário oficial.

O detalhe mais perturbador não era o fato de estar escondida. Era o símbolo entalhado na tampa: um círculo atravessado por três linhas verticais, como se alguém tivesse tentado dividir algo indivisível.

Lia sentiu um arrepio subir pela espinha.

Ela levou a caixa até sua mesa e a abriu.

Dentro havia apenas um objeto: um manuscrito encadernado em couro negro, sem título na capa.


As Palavras Que Surgiam Sozinhas

As páginas eram amareladas, mas a tinta parecia recente.

Então aconteceu.

O texto começou a surgir diante de seus olhos.

Letras apareciam lentamente na página em branco, como se uma mão invisível segurasse uma caneta invisível.

“Lia encontrou o manuscrito às 22h43. Ela ainda não entende que já faz parte da história.”

Ela deixou o livro cair no chão.

As letras pararam.

Silêncio absoluto.

Com o coração acelerado, pegou o manuscrito novamente.

Olhou para o relógio na parede.

22h43.


A História Continua

Ela virou a página.

Nova frase começou a surgir:

“Ela vai tentar sair do prédio em dois minutos.”

Lia correu pelo corredor estreito entre as estantes, ouvindo o eco dos próprios passos.

Quando alcançou a porta principal, puxou a maçaneta.

Trancada.

Impossível.

O prédio nunca trancava por dentro.

Ela voltou correndo até a mesa.

“A porta está trancada. Ela começa a entender.”

O Livro Decide?

Lia folheou as páginas rapidamente.

As próximas estavam em branco.

Mas sempre que fixava o olhar nelas, palavras surgiam.

Descrevendo exatamente o que ela fazia.

Exatamente o que ela sentia.

Era como se o livro estivesse narrando sua vida em tempo real.

Ou pior.

Como se estivesse decidindo.


A Tentativa de Queimar o Manuscrito

Se o livro escrevia a história, talvez pudesse ser interrompido.

Ela correu até a pequena copa no fundo do arquivo, pegou uma caixa de fósforos esquecida na gaveta e voltou.

Colocou o manuscrito sobre a mesa.

Acendeu o fósforo.

A chama tremia.

Antes que encostasse no couro da capa, novas palavras surgiram:

“Ela pensa em queimar o manuscrito. Mas não sabe que o manuscrito também pode reescrever o final.”

O fósforo apagou sozinho.


O Último Parágrafo

As letras começaram a surgir mais rápido.

“Lia entende tarde demais. O manuscrito não registra a realidade. Ele cria. E agora que foi aberto, precisa de um final.”

As luzes do prédio piscaram.

O ar ficou pesado.

A última linha apareceu lentamente:

“E assim, ela desaparece das páginas do mundo.”

O silêncio voltou.

Na mesa, apenas o manuscrito fechado.

Esperando o próximo leitor.


Reflexão Final

E se algumas histórias não forem escritas por autores…

Mas por forças que precisam existir através de quem as lê?

Você abriria esse livro?

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