🌑 CAPÍTULO 2 — O Quarto que Não Era Visitado

 

Série: A Casa Que Sussurrava



Os dias seguintes pareciam seguir um ritmo próprio dentro da casa herdada. Helena acordava cedo, abria as janelas, caminhava entre os móveis que carregavam histórias silenciosas e tentava organizar a rotina naquele lugar que era, ao mesmo tempo, familiar e estranho.

Mas, por mais que explorasse cada canto, havia sempre um cômodo que ficava para trás: o quarto de Dona Heloísa.

A porta permanecia fechada desde sua chegada, e embora nada ali causasse medo real, existia uma sensação de que aquele espaço guardava algo mais do que objetos antigos—guardava intenções.

🕯️ A Decisão de Entrar

Numa tarde nublada, o céu parecia pesar sobre o telhado. O ar estava imóvel, como se a casa aguardasse uma decisão que só Helena poderia tomar.
Ela passou pelo corredor estreito e parou diante da porta do quarto. A maçaneta de bronze estava fria; o metal antigo tinha aquele toque de memória, como se mãos de outras épocas ainda estivessem ali.

Ao girá-la, o estalo não foi assustador—foi apenas o som natural de madeira que já viveu muitos anos.


O quarto abriu-se diante dela como se tivesse sido mantido no tempo. A luz suave que entrava pelas cortinas claras revelava móveis de madeira escura perfeitamente posicionados, como se Heloísa tivesse saído apenas para tomar um chá e logo voltaria.

Era impossível não notar o cuidado: nada estava fora do lugar.

Mas havia algo mais…

Um envelope sobre a penteadeira.
Com o seu nome.

HELENA, escrito em letras firmes e elegantes.

📜 A Carta da Tia Heloísa

Com cuidado, Helena abriu o envelope. O papel, apesar de antigo, estava bem conservado.

A mensagem era simples, porém profunda:

“Se você estiver lendo isto, significa que esta casa voltou a ter vida.
Não tema seus ruídos: casas antigas apenas conversam com o tempo.
Que este lugar te ajude a encontrar aquilo que você sempre ignorou.”

Era curioso como a carta parecia falar diretamente com algo que Helena não sabia que procurava.
Aquela casa havia sido pouco presente em sua infância, mas o suficiente para deixar sombras de lembranças vagamente guardadas.


📚 O Diário Esquecido

Ao se aproximar da cama, Helena notou um pequeno livro com capa de tecido bordado. Pela textura, percebeu que não era algo da tia-avó.
Quando abriu a primeira página, uma surpresa a fez rir baixinho:

O livro era dela mesma.
Um diário infantil que achava ter perdido anos atrás.

As primeiras páginas estavam cheias de desenhos desalinhados—corredores, janelas, cortinas—coisas que captavam sua atenção quando criança. Ela desenhava portas fechadas, mas sempre deixava uma pequena fresta, como se tivesse medo de completá-las.

Em meio aos rabiscos, uma frase escrita com letras tortas e grandes:

“A casa fala baixinho para quem escuta sem medo.”

Era algo que uma criança escreveria apenas se tivesse sentido algo muito pess
oal.
Não era medo.
Era… percepção.

O tipo de sensibilidade que se perde ao crescer.

Helena, sentada na cama, sentiu algo muito particular naquele momento:
uma mistura de nostalgia, compreensão e uma estranha sensação de que estava, finalmente, no lugar certo.


🌫️ Um Cheiro Familiar

Enquanto folheava o diário, uma brisa suave atravessou o quarto.
As cortinas balançaram levemente, e um cheiro de lavanda tomou o ar—o mesmo aroma que a tia Heloísa usava no jardim, o mesmo que Helena lembrava vagamente das visitas.



A janela estava entreaberta.

Mas Helena tinha certeza de que a havia visto fechada quando entrou.

Ela caminhou até lá.
Não havia vento forte do lado de fora.
O ar parado tornava o movimento das cortinas quase inexplicável.

Quase.

Casas antigas respiram através das frestas, pensou.

Mesmo assim… havia algo poético naquele movimento.

🔍 Objetos Que Contam Histórias

Ao olhar ao redor com mais atenção, percebeu detalhes que não vira antes:

— Uma caixinha de música sem corda, mas perfeitamente limpa.
— Um par de luvas dobradas com carinho.
— Um espelho pequeno, inclinado como se alguém tivesse o hábito de usá-lo recentemente.
— Um marcador de livro preso entre páginas de uma obra de poesias antigas.

Quanto mais observava, mais Helena sentia que o quarto não era um espaço abandonado:
era um lugar preservado.

Como se Dona Heloísa soubesse que alguém voltaria.

🕯️ O Último Detalhe

Antes de sair, Helena guardou o diário consigo.
Sabia que aquilo seria importante.

Mas, quando estava prestes a fechar a porta, notou uma pequena gaveta entreaberta na escrivaninha.
Dentro, encontrou uma chave.

Pequena, de metal escuro, com um formato antigo e belo.

Amarrado a ela, um papel dobrado:

“Quando você estiver pronta.”

Aquela frase era simples, mas carregava um peso que Helena sentiu na pele.

A casa não estava tentando revelar seus segredos de uma vez.

Ela estava guiando o ritmo.

E, pela primeira vez, Helena percebeu algo muito claro:

A casa não sussurrava para ser ouvida.
Ela sussurrava para que alguém quisesse escutar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário